Já sentiu que estava a cair ao adormecer? Saiba porquê

A maioria das pessoas já sentiu algumas vezes, depois de adormecer, que estava a cair. Acorda-se em sobressalto, porque a sensação de estar a cair parece real.

Tecnicamente, trata-se de um espasmo hípnico e é uma contração dos músculos, sobretudo os das pernas, mas que pode ocorrer em todos os músculos. É como um espasmo, neste caso acompanhado, por vezes, de uma imagem ou alucinação.

A parte mais curiosa deste espasmo é que a sua origem pode estar nas origens da humanidade. No passado, num passado muito longe, as pessoas adormeciam em locais perigosos ou em que era preciso equilíbrio.

Por exemplo, os nossos antepassados dormiam nas árvores e então o cérebro desenvolveu este alerta que permite despertar quem está a dormir porque vai cair.

Quem já sentiu isto, é mesmo como se tivesse adormecido numa árvore e sentisse que estava caindo. Pois é. Ficou desde esse tempo este fenómeno. As pessoas, mesmo estando dormindo com toda a segurança, em suas camas, ainda têm o medo de cair.

Aí o corpo, sentindo esse risco, contrai e desperta, numa tentativa de ainda salvar da queda.

A boa notícia é que o espasmo hípnico, hoje em dia, será em princípio apenas uma memória antiga.

Dormir sem preocupações e as horas certas pode ajudar a evitar estes sustos. Se deitar preocupado, provavelmente também se vai preocupar com uma possível queda.

Porquê dormir é tão importante?

A maioria das pessoas considera importante o sono, mas há também quem vá para a cama tarde e acaba dormindo pouco, sem sentir grande cansaço. Essas pessoas acreditam que dormem o que é preciso.

No entanto, não é bem assim. Dormir é sempre importante, dormir bem e uma noite inteira. Porquê?

Durante a noite, o organismo não está apenas em repouso. O repouso é sim uma parte importante da noite, mas há muitas outras coisas que acontecem durante a noite.

Regeneração celular

Em primeiro lugar, a regeneração celular que ocorre particularmente durante o período de sono e é da maior importância para a saúde.

Relaxamento

Depois temos o relaxamento dos músculos. Durante todo o dia há contrações, mesmo quando não se está fazendo nada. O organismo está em alerta. Só quando se está dormindo o corpo consegue relaxar, mas mesmo nessa altura não é completamente.

Desintoxicação

Há ainda a desintoxicação. Durante o sono, há uma espécie de limpeza do organismo, que não pode ser feita quando existem outras actividades.

Estas são algumas das principais funções que ocorrem durante a noite, mas há muitas mais, algumas com explicações mais técnicas que devem ser explicadas em detalhe por especialistas.

Mas então, quando não se dá ao organismo as horas de sono que ele precisa, estes processos são interrompido. Ou nem sequer se realizam. Podemos achar que estamos bem, com energia, não nos sentimos cansados, mas não permitimos ao organismo desenvolver funções que são vitais.

Resumindo, não deve avaliar a necessidade de dormir mais apenas pelo cansaço. O cansaço sim é um sinal importante, mas há outras questões que não dão sinal e são tão ou mais importantes.

É sempre preciso dormir as horas certas e sem preocupações, com toda a tranquilidade.

Atenção que dormir demasiado também não é bom. Deve dormir-se, segundo os estudos mais recentes, entre 6 a 8 horas. E voltamos a repetir: Quem dorme 4 ou 5 e acorda com energia pode não precisar de dormir mais, mas o corpo sim!

Dormir sem preocupações

Dormir bem, sem preocupações

Entre as dicas para dormir melhor, talvez a mais importante seja largar as preocupações antes de ir para a cama.

Há preocupações de vários níveis. Aquelas do cotidiano, do que se tem para fazer no dia seguinte, coisas que aconteceram durante o dia ou questões pendentes que estamos sempre tentando recordar para não esquecer.

Estas preocupações são mais simples de resolver. Anote tudo num papel. Antes de ir dormir, passe a informação que está correndo no cérebro para o papel. Ao escrever tudo, logo fica com mais descanso porque sabe que o precisa de saber está ali.

Não é preciso estar sempre esforçando o cérebro para lembrar. Está no papel.

Depois há preocupações mais sérias, assuntos da vida de cada um. Essas nem sempre se podem passar para um papel,

O que fazer, então, para deixar de lado as preocupações e dormir melhor?

A resposta não é fácil. Tem de se fazer um exercício que pode custar. Como ir na academia. Também é duro, mas traz benefícios.

Assim, antes de dormir deve fazer um esforço para pôr de lado as preocupações, pensar que tudo se vai resolver. Amanhã é outro dia. Será melhor. Ou não será, eu não sei. Mas do que vale agora a preocupação?

Eu vou então fazer um esforço para acreditar. Assim como piora, também melhora. É nisso que eu tenho de acreditar, fazendo esforço por isso. Como correr. Estou cansado, vou desistir. Não! Eu vou chegar lá.

É assim também com o que estamos pensando. Eu vou chegar lá. Eu não vou desistir. Se eu dormir melhor, eu estarei sempre melhor para enfrentar os meus problemas.

Se eu me deixar ficar mal, será ainda mais difícil. Por isso eu vou conseguir.

“Mas fica difícil, as preocupações continuam aqui”

Como na academia. Continuar, não parar. É um exercício. Está a custar mas tem de insistir. Tudo se vai resolver. Eu preciso descansar. Eu vou descansar. Eu vou sonhar. Sonhar muito. Com o bem. Sem parar. Estou cansado, mas não desisto.

Noite de Sonhos Voada

Noite de Sonhos Voada

Noite de sonhos voada 
cingida por músculos de aço, 
profunda distância rouca 
da palavra estrangulada 
pela boca amordaçada 
noutra boca, 
ondas do ondear revolto 
das ondas do corpo dela 
tão dominado e tão solto 
tão vencedor, tão vencido 
e tão rebelde ao breve espaço 
consentido 
nesta angústia renovada 
de encerrar 
fechar 
esmagar 
o reluzir de uma estrela 
num abraço 
e a ternura deslumbrada 
a doce, funda alegria 
noite de sonhos voada 
que pelos seus olhos sorria 
ao romper de madrugada: 
— Ó meu amor, já é dia!… 

Manuel da Fonseca, “Poemas Dispersos”

Como a noite é longa

Como a Noite é longa. Fernando Pessoa

Como a noite é longa! 
Toda a noite é assim… 
Senta-te, ama, perto 
Do leito onde esperto. 
Vem p’r’ao pé de mim… 

Amei tanta coisa… 
Hoje nada existe. 
Aqui ao pé da cama 
Canta-me, minha ama, 
Uma canção triste. 

Era uma princesa 
Que amou… Já não sei… 
Como estou esquecido! 
Canta-me ao ouvido 
E adormecerei… 

Que é feito de tudo? 
Que fiz eu de mim? 
Deixa-me dormir, 

Dormir a sorrir 
E seja isto o fim. 

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”